Um relatório divulgado nesta semana por uma comissão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos afirma que a China estaria operando uma rede de instalações espaciais na América Latina com potencial uso militar.
Entre os locais citados no documento estão duas estruturas em território brasileiro, incluindo uma estação instalada na Bahia.
O relatório foi elaborado pela "House Select Committee on Strategic Competition Between the United States and the Chinese Communist Party" (Comissão Seleta da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês) , grupo criado em 2023 no Congresso americano para formular estratégias de competição econômica e militar com Pequim.
No documento, os parlamentares demonstram preocupação com a crescente cooperação espacial entre países latino-americanos e a China, que, segundo eles, pode resultar em uma infraestrutura de uso dual, com aplicações civis e militares.
Um dos pontos destacados é a Estação Terrestre de Tucano, localizada na Bahia. A instalação foi criada a partir de um acordo firmado em 2020 entre a startup brasileira Alya Nanosatellites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, durante o governo de Jair Bolsonaro.
O site oficial da empresa Alya Space, dona do projeto citado no relatório, está atualmente em construção. Mas uma versão anterior da página, de 15 de janeiro de 2025, informava que a startup tinha quatro bases terrestres no Brasil: uma em Cuiabá (MT), uma em Sorocaba (SP), uma em Paço do Lumiar (MA) e uma justamente em Tucano (BA).
O site listava o endereço na cidade baiana como Rodovia Santos Dumont - BR-116.
Segundo o relatório, a empresa chinesa pode fornecer sistemas de comunicação espacial capazes de transmitir dados de longa duração entre satélites e a Terra, tecnologia que poderia ser utilizada tanto para missões espaciais quanto para satélites de reconhecimento.
Os parlamentares americanos afirmam ainda que o local exato da estação não é publicamente conhecido e citam como motivo de preocupação o acordo de transferência de dados e tecnologia entre as empresas, além da participação da Força Aérea Brasileira no projeto.
O documento levanta a hipótese de que a estrutura possa funcionar como um posto de rastreamento espacial, capaz de monitorar satélites e até identificar ativos militares camuflados por meio da integração de dados.
Outro projeto citado no relatório é um laboratório de radioastronomia localizado na Serra do Urubu, no sertão da Paraíba. A instalação faz parte de uma iniciativa científica internacional que envolve diversos países, incluindo França e Reino Unido.
Radiotelescópios captam ondas eletromagnéticas provenientes do espaço e são utilizados para estudos sobre a formação do Universo. No entanto, parlamentares americanos afirmam que sensores desse tipo também podem detectar sinais emitidos por satélites e equipamentos militares.
O relatório sustenta que essas estruturas fariam parte de uma rede global de vigilância espacial da Exército Popular de Libertação, ampliando a capacidade da China de monitorar atividades militares e espaciais de outros países.
Recomendações
Entre as recomendações apresentadas, a comissão sugere que o governo do presidente Donald Trump adote medidas para conter a expansão da infraestrutura espacial chinesa no hemisfério ocidental.
O documento propõe que os Estados Unidos estabeleçam como objetivo estratégico bloquear novas instalações ligadas à China na região, além de reforçar parcerias com países latino-americanos para ampliar mecanismos de transparência e supervisão dessas estruturas.
A comissão também recomenda o uso de iniciativas de “diplomacia de inteligência”, com o objetivo de ampliar o acesso a informações sobre projetos espaciais desenvolvidos na América Latina.
No Brasil, o tema já começou a gerar repercussão política. Na terça-feira (3), a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados do Brasil solicitou explicações ao Ministério da Defesa do Brasil sobre a instalação da estação de Tucano, na Bahia.