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"Em quem você vota, e por quê?"

Data:
Atualizado em: 20 de Outubro de 2026
Antonio Dilson Neto

Se a democracia está em risco, não sei se conseguiremos salvá-la voltando a pegar porretes para dar uma lição no "outro lado"

"Em quem você vota, e por quê?"
Unsplash

Em algum momento dos últimos 20 anos, você esteve com a TV ligada na Globo num domingo à noite e assistiu à formação de Paredão do Big Brother Brasil. se isto é verdade, a frase "em quem você vota, e por quê" deve soar familiar e associada às vozes de Pedro Bial, Tiago Leifert ou Tadeu Schmidt. Há algo de interessante na pergunta: o telespectador precisa entender o motivo de voto do brother. E sempre há algum. Frágeis, estratégicos, bons ou péssimos. Mas há.

E os participantes são obrigados a revelá-los.

A Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (8) imediatamente após o primeiro turno das eleições deste ano[a mesma que radiografou as intenções para o segundo turno] mostrou que 25% dos eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) escolhem o candidato por quererem derrotar o presidente Lula (PT). O percentual dos que escolhem o atual mandatário para bater o senador é de 13%.

Ao considerar todo o eleitorado, são 76% que afirmam escolher o melhor candidato da eleição, ante 19% os que dizem querer derrotar o adversário.

Veja bem: há uma parte do eleitorado que escolhe um por causa do outro. não por que a sua escolha é melhor, mais coerente ou de melhores propostas. apenas para derrubar o outro.

A polícia do voto

A poucos dias do fantasmagórico e mais radicalizado segundo turno da história eleitoral recente, é impossível abrir o instagram, x ou apps de notícias e não se deparar com as estratégias de conversão de voto; as dos candidatos e a dos eleitores. Também parece impossível não encontrar gente cobrando publicização do posicionamento político e quem se sinta obrigado a revelar em quem vota - e por quê.

A humanidade saiu do estado de bárbarie para o contrato social, ou seja, deixamos de resolver a coisa na porrada e no grito para buscar o diálogo e ouvir as vozes dos adversários que, mesmo incômodas ou desagradáveis, cabem no espaço público. Mas o que parece estar acontecendo nas redes sociais brasileiras em 2026 é uma outra coisa. Todos são obrigados a 1) declarar publicamente seu voto ou intenção de; 2) justificá-la e; 3) escolher o lado certo, sob pena de cancelamentos e campanhas difamatórias. 

Talvez o maior exemplo do nível extremo de temperatura das coisas em que estamos seja o mais novo episódio envolvendo o influenciador Felca. Após a grande repercussão dos vídeos sobre adultização, que resultaram em uma movimentação inédita, incluindo mudanças na legislação, Felca voltou às redes nesta semana para relatar uma série de abusos e bullyng que sofreu durante a infância e lhe causaram dificuldade em lidar com situações sociais na vida adulta.

As reações não foram exatamente solidárias, ainda que o assunto seja importante e delicado e exponha traumas de uma vida toda. Felca foi acusado de ter um péssimo timing e que é “um absurdo” não usar as redes sociais para revelar em quem vota e porque. 

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A democracia nasceu para que as questões da vida comum não fossem resolvidas na porrada, mas na conversa. E conversa, aqui, não significa servir chá com biscoitos aos rivais e concordar com o que nos parece - e, às vezes, é - errado. Significa ouvir e entender para traçar uma estratégia. 

Se a democracia está em risco, não sei se conseguiremos salvá-la voltando a pegar porretes para dar uma lição no "outro lado".

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