Na reta final da campanha eleitoral, uma personagem tomou conta do debate público, dos boatos, das decisões judiciais e dos atos dos dois principais candidatos à Presidência: Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Para entender como ela foi parar no centro da disputa, é preciso voltar a 2007. Naquele ano, o então deputado federal Victório Galli apresentou um projeto para substituir, na lei, o título de “padroeira do Brasil” pelo de “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi rejeitada e arquivada em 2008. Não é um projeto em tramitação, nem foi apresentado por Flávio Bolsonaro.
Em vídeo publicado em 23 de agosto para justificar sua ausência no debate da Band, Flávio disse que queria debater com quem não acreditava em Deus. “Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, afirmou. A frase é dele (e pode ser problematizada). O plano de destituir Nossa Senhora Aparecida, não.
Mais de um mês depois, a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmou na GloboNews que haveria, na Igreja Católica, uma reação a uma parcela de evangélicos supostamente mobilizada para retirar da santa o título de padroeira. Horas depois, a emissora se corrigiu: o projeto citado estava arquivado havia 18 anos e não havia uma mobilização organizada naquele sentido. A comentarista não havia atribuído a iniciativa a Flávio; nas redes, porém, essa ligação passou a circular como se fosse fato.
A padroeira e o Supremo
Mesmo com a correção, as publicações seguiram associando Flávio à suposta intenção de mexer no título de Nossa Senhora Aparecida. A campanha do candidato do PL recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral. Na sexta-feira (25), André Mendonça determinou a retirada de conteúdos que apresentavam essa associação como verdadeira.
No domingo (27), Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a ordem e determinou o restabelecimento das publicações atingidas por ela. Dino atendia a um pedido do humorista Antonio Tabet, autor de um post removido que dizia: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida”. O texto não citava Flávio pelo nome. A ausência do nome pesou na avaliação de Dino sobre liberdade de expressão; não encerrou, contudo, a disputa sobre o sentido da postagem.
Na noite de segunda-feira (28), Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu, provisoriamente, as ordens do TSE. Isso não significa que o Supremo tenha resolvido em definitivo quais publicações são mentira, crítica ou sátira. Significa que até a forma de combater o boato virou objeto de disputa às vésperas da votação.
A campanha da Santa
Daí em diante, como era de esperar, Nossa Senhora Aparecida apareceu em tudo quanto é vídeo, imagem, discursos e gestos de campanha. Entre santas cravejadas de pérolas e santas de crochê, cada lado tentou tirar algum proveito da controvérsia. O que ainda não dá para medir é quanto disso chegará à urna. Religião em campanha não é novidade, mas o que chama atenção, desta vez, é a facilidade com que uma frase verdadeira, um projeto arquivado e uma informação errada se combinaram para produzir uma acusação falsa. E o alvo é o candidato que representa a direita no Brasil, espectro político mais acostumado a produzir narrativas do que ser alvo delas.
As fake news mais eficazes raramente parecem absurdas. Elas se apoiam em medos conhecidos, aproveitam fatos reais fora de contexto e oferecem ao eleitor a satisfação de ver confirmada sua pior suspeita sobre o adversário. Foi assim neste caso. E aqui cabe sublinhar: ódio e desinformação não são instrumentos que só existem à direita. O episódio da Santa mostra isso muito bem. É uma grande desinformação que, ora veja, não começou no "pântano da extrema-direita", mas nasceu e foi bem nutrida pelas mãos limpinhas de jornalistas, comentaristas e influencidadores progressistas.
O fato de "esta ser uma coisa que Flávio diria ou faria para agradar sua base" não significa que ele tenha dito ou feito. Pode ser fake news. E não existem ‘mentiras do bem’.