Nos últimos dois anos, o cinema brasileiro voltou a ganhar destaque no Oscar. Em 2025, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conquistou a primeira estatueta do país na categoria de Melhor Filme Internacional. A vitória reacendeu a chama do cinema nacional nas competições globais, mantida acesa no ano seguinte por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que garantiu mais uma indicação, embora não tenha levado o prêmio.
Agora, a expectativa é que Feito Pipa, novo longa de Allan Deberton, dê continuidade a essa trajetória. Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2027, o filme carrega a responsabilidade de buscar uma terceira indicação consecutiva para o país.
Mas será que a produção tem força para chegar tão longe?

Quando o vento muda de direção
Feito Pipa acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino queer que vive com a avó, Dilma (Teca Pereira), e sonha em se tornar jogador de futebol. Enquanto enfrenta uma relação conturbada com o pai, Batista (Lázaro Ramos), o garoto precisa lidar com uma nova dificuldade quando a avó começa a apresentar os primeiros sinais de Alzheimer.
Um dos maiores méritos de Feito Pipa está na forma como o roteiro articula diferentes conflitos sem perder a naturalidade da narrativa. A construção dos personagens é cuidadosa, e suas relações se desenvolvem de maneira orgânica, sem diálogos ou situações que pareçam artificiais.
As atuações acompanham essa proposta. O elenco apresenta excelentes interpretações, que contribuem para a sensação de intimidade com os personagens. Em vez de recorrer a grandes gestos dramáticos para provocar emoção, o filme encontra força no silêncio e nos pequenos momentos contemplativos.
Com aproximadamente uma hora e meia de duração, o longa aposta em uma narrativa enxuta. Essa escolha, porém, se apresenta como uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que mantém a história dinâmica, também deixa a sensação de que algumas ideias poderiam ser mais desenvolvidas. Essa impressão fica evidente no desfecho da história, que, ao deixar algumas pontas soltas, pode gerar uma certa insatisfação ou uma fome de quero mais.

A caminhada até o Oscar
Para escolher o representante no Oscar 2027, a Academia Brasileira de Cinema abriu inscrições para produções nacionais interessadas em disputar a vaga. Ao todo, 15 filmes participaram da seleção. Desse grupo, seis avançaram à etapa final, e Feito Pipa foi o escolhido pela comissão responsável para representar o país na categoria de Melhor Filme Internacional.
A conquista, porém, não significa que o longa já esteja entre os indicados ao Oscar. Essa é apenas a primeira etapa do processo. Agora, o filme precisa enfrentar uma nova seleção, desta vez conduzida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Em dezembro, será divulgada uma lista preliminar com 15 produções internacionais, conhecida como shortlist. Depois, os votantes escolherão os cinco títulos que efetivamente disputarão a estatueta. O anúncio dos indicados está previsto para 21 de janeiro de 2027, quando saberemos se o Brasil conseguirá manter sua sequência de indicações.

Quais as chances de uma estatueta?
Baixas, mas não inexistentes. A trajetória internacional do filme, com passagens por festivais e premiações importantes, dá motivos para acreditar em uma possível indicação. Embora uma vaga entre os finalistas não esteja fora de alcance, conquistar a estatueta pode ser apenas um sonho.
Existe uma expectativa em torno de Lázaro Ramos, alimentada pela brincadeira que relaciona o ator às indicações de Fernanda Torres e Wagner Moura nos últimos anos, com o filme Saneamento Básico (2007), no qual os três atuaram juntos. Apesar de entregar uma boa performance, Lázaro não é o protagonista da história e seu personagem não tem tantos momentos de destaque. Uma indicação como coadjuvante não é impossível, mas ainda parece uma aposta difícil.
Independentemente do resultado, Feito Pipa merece ser reconhecido pelo que representa para o cinema nacional. Uma indicação ao Oscar seria motivo de celebração, mas o Brasil não pode depender exclusivamente do reconhecimento de uma premiação estrangeira para validar suas produções.
Nota: 3/5