Cara-de-Barro tinha tudo para mergulhar de cabeça no horror corporal, mas parece ter medo da própria proposta. O filme flerta com o grotesco e ensaia momentos perturbadores, mas pisa no freio quando o terror ameaça ocupar o centro da narrativa. Com ambição de conquistar o público geral para o novo universo da DC Studios, o longa prefere se manter no raso a mergulhar de vez no horror.
Mas será que essa cautela compromete tanto a experiência ou Cara-de-Barro ainda esconde bons motivos para conquistar o público?
A perfeição é aliada do terror
Nessa história acompanhamos Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator que vê a carreira desmoronar após sofrer uma mutilação no rosto. Na tentativa de recuperar a aparência e voltar aos holofotes, ele se submete a um tratamento experimental que promete corrigir imperfeições do corpo humano, mas seus efeitos fogem do controle e conduzem o protagonista a uma transformação monstruosa.
Dirigido por James Watkins (Não Fale o Mal), o longa aposta em uma premissa que abre espaço para explorar a obsessão pela perfeição e até onde alguém estaria disposto a ir para recuperar aquilo que acredita ter perdido.

Todos querem 'A Substância'
A premissa de Cara-de-Barro inevitavelmente evoca A Substância (2024), filme dirigido por Coralie Fargeat que levou o horror corporal a um público amplo ao transformar a busca pela juventude e pela perfeição física em um espetáculo grotesco.
Embora não exista necessariamente uma relação direta entre as duas obras, ambas partem de uma ideia perturbadora: a disposição de submeter o próprio corpo a procedimentos extremos na tentativa de corrigir aquilo que a sociedade, ou o próprio indivíduo, considera inadequado.
É justamente nesse terreno que Cara-de-Barro encontra uma de suas possibilidades mais interessantes. A transformação de Matt Hagen poderia servir não apenas como fonte de repulsa visual, mas também como instrumento para explorar a fragilidade da identidade e a obsessão de um homem em recuperar a imagem que tinha de si mesmo.
O problema é que, apesar de flertar com essas questões, o filme nem sempre parece disposto a aprofundá-las por meio do terror.

A disputa entre direção e cenário
A dificuldade do filme em sustentar o terror passa também pela construção de sua atmosfera. A fotografia e a ambientação nem sempre contribuem para criar o desconforto que a história exige, enquanto as mudanças de tom da direção interrompem a sensação de ameaça a fim de tornar o horror mais palatável ao público.
Essa fragilidade fica ainda mais evidente na cidade de Gotham City. Em Batman (2022), e em O Pinguim (2024), ambos do diretor Matt Reeves, a mesma cidade funciona quase como um personagem, com ruas, arquitetura e uma atmosfera decadente que influenciam diretamente na vida dos protagonistas.
Em Cara-de-Barro, porém, Gotham parece perder essa identidade e o cenário se aproxima de uma metrópole americana genérica, pouco contribuindo para a construção do universo sombrio que a história poderia explorar.

A pergunta que não quer calar: vale assistir?
A resposta é sim. Apesar das limitações, Cara-de-Barro encontra méritos que vão além de sua premissa. A história consegue envolver ao trazer para o centro da narrativa um dos vilões mais conhecidos do universo do Batman, enquanto o ator Tom Rhys Harries entrega uma ótima atuação. Mas o grande destaque fica para a transformação física do personagem, resultado de um trabalho que combina efeitos práticos e digitais.
A maquiagem é digna de elogios, especialmente pela maneira como acompanha as mudanças constantes do corpo e dá forma às diferentes etapas da mutação. O resultado é visualmente impressionante e reforça o potencial do horror corporal que a história carrega. É um trabalho técnico que merece ser reconhecido, sobretudo por conseguir materializar uma das características mais conhecidas do vilão dos quadrinhos.
Outro aspecto que merece destaque é a construção do suspense, que mantém a curiosidade sobre os rumos da transformação e até onde ela pode chegar. Nesse sentido, o filme se aproxima de A Mosca (1986), do diretor David Cronenberg, em que a mutação física se torna parte central da narrativa e acompanha a deterioração do protagonista. Assim como no clássico de Cronenberg, o horror nasce não apenas da aparência monstruosa, mas também da percepção de que o corpo está se tornando algo irreconhecível.
No fim das contas, Cara-de-Barro tem bons motivos para conquistar o público. Embora não explore todas as possibilidades de sua proposta, o longa entrega momentos que justificam a ida ao cinema. Para quem gosta de terror, ou simplesmente de um bom suspense, vale dar uma chance.
O filme chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22).
Nota: 3/5