Voar longas distâncias entre o Norte do país e o interior de São Paulo ou até cruzar o Atlântico não era obstáculo para dois pilotos denunciados pelo Ministério Público por envolvimento com o Primeiro Comando da Capital. Segundo a acusação, o comandante Thiago Almeida Denz e o copiloto Renan Machado Melo integravam o chamado “núcleo aéreo” da organização, responsável por transportar grandes cargas de cocaína em voos domésticos e internacionais.
De acordo com a investigação, a remuneração era um dos principais atrativos do esquema. Cada operação dentro do Brasil rendia cerca de R$ 750 mil por piloto. Já nos trajetos internacionais, o pagamento chegava a US$ 800 por “peça” de droga embarcada. Em uma das ações atribuídas aos dois, foram transportados mais de 500 quilos de cocaína entre Boa Vista, em Roraima, e Campinas, no interior paulista.
A denúncia aponta que o esquema contava com apoio logístico e financeiro de empresários, entre eles João Carlos Camisa Nova Júnior, descrito como articulador e financiador das operações, e André Roberto da Silva, responsável pelo suporte operacional. Ambos teriam indicado que os pilotos tinham conhecimento da carga ilícita e foram contratados diretamente para esse tipo de transporte.
As investigações também revelam o uso de uma aeronave executiva modelo Dassault Falcon 50, adaptada com compartimentos ocultos para esconder os entorpecentes. O jato, capaz de realizar voos intercontinentais, era utilizado tanto em rotas nacionais quanto internacionais, incluindo trajetos que ligavam o interior de São Paulo à Europa.
Os pilotos ainda são citados na Operação Mafiusi, que apura a conexão entre empresários brasileiros e a máfia italiana ’Ndrangheta. Em uma das viagens investigadas, a aeronave teria partido de Sorocaba rumo às Ilhas Canárias e, em seguida, à Bélgica, transportando cocaína. Mensagens obtidas pelos investigadores indicam que o avião chegou a decolar “carregado até o último buraco”, sem fiscalização.
Segundo a Promotoria, o grupo adotava estratégias para evitar suspeitas, como a presença de passageiros nos voos e adaptações estruturais na aeronave. Em Campinas, um dos pontos de pouso, o hangar utilizado pelo grupo contava até com barreiras visuais para esconder a movimentação.
As defesas dos pilotos negam as acusações e afirmam que a denúncia se baseia apenas em declarações de corréus. Os advogados sustentam ainda que a tripulação não tem responsabilidade direta sobre a verificação da carga transportada e que os profissionais não cometeram irregularidades.