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Presidente da Parada LGBT desafia projeto da Câmara: “Vai ter criança, sim”

Data:
Maria Eduarda Moura*

Durante coletiva de imprensa, presidente afirmou que “vai ter criança, sim” no evento.

Presidente da Parada LGBT desafia projeto da Câmara: “Vai ter criança, sim”
Reprodução/Leandro Chemalle

O presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, Nelson Matias, criticou nesta terça-feira (26) o projeto de lei aprovado em primeira votação pela Câmara Municipal que proíbe a presença de crianças e adolescentes na Parada LGBT+. Durante coletiva de imprensa, ele afirmou que “vai ter criança, sim” no evento.

A 30ª edição da Parada será realizada em 7 de junho, na Avenida Paulista, a partir das 10h. Com foco nas eleições, o tema deste ano será: “A rua convoca, a urna confirma”.

“Hoje, mais do que nunca, precisamos lembrar: não existe orgulho sem democracia. Se o golpe tivesse dado certo, a gente não estaria aqui. Não existe democracia verdadeira sem participação popular nem sem a população LGBT”, declarou Matias.

O projeto de lei nº 50/2025, de autoria do vereador Rubinho Nunes (União Brasil), foi aprovado em primeira votação no último dia 23. O texto determina que eventos com temática LGBTQIA+ ocorram apenas em espaços fechados, com controle de entrada, além de proibir a ocupação de vias públicas. A proposta também prevê classificação indicativa para maiores de 18 anos e multas de até R$ 1 milhão em caso de descumprimento.

Especialistas ouvidos pelo g1 classificam o projeto como inconstitucional e discriminatório. Para Nelson Matias, a Parada representa mais do que uma celebração.

“A Parada nunca foi construída como um grande evento. É um ato de resistência, espaço de defesa da democracia e dos direitos humanos”, afirmou.

A organização também enfrenta dificuldades financeiras neste ano. Segundo Matias, a redução no número de patrocinadores representa “talvez um dos maiores desafios da história” do evento. “Muitas empresas têm recuado por medo, pressão política ou até conveniência”, disse.

A queda no apoio financeiro impactou diretamente a estrutura da Parada. Neste ano, o evento terá 14 trios elétricos, contra 17 em 2025. Alguns artistas abriram mão do cachê para participar da edição. Entre os nomes confirmados estão Gloria Groove, Melody, Pepita, Jup do Bairro, Diego Martins, Isma, Dornelles e Katy da Voz e as Abusadas.

Segundo estimativa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a Parada deve movimentar R$ 466,2 milhões na economia paulistana em 2026. O valor representa queda de 15% em relação ao ano anterior, quando o evento injetou R$ 548,5 milhões na capital.

A projeção considera gastos com bares, restaurantes, hotéis, turismo, transporte, comércio informal e venda de adereços, setores tradicionalmente impulsionados pelo público da Parada.

Nos bastidores, artistas e organizadores têm criticado empresas que costumam adotar campanhas voltadas ao público LGBTQIA+ durante o mês do orgulho, mas reduziram ou abandonaram investimentos no evento neste ano.

Uma das críticas mais contundentes partiu da cantora Pabllo Vittar, que questionou o afastamento de marcas patrocinadoras.

“No ano passado, a Parada movimentou bastante dinheiro. A população LGBTQIA+ também consome, usa banco, restaurante, hotel e transporte. Então é muito fácil colocar bandeira colorida no mês do orgulho sem oferecer apoio verdadeiro à comunidade”, afirmou.

Embora a Parada não faça parte do calendário oficial da Prefeitura de São Paulo, a gestão municipal tradicionalmente apoia o evento com investimentos e divulgação institucional. Em 2025, foram destinados mais de R$ 6 milhões para a celebração.

O projeto de lei ainda precisa passar por uma segunda votação na Câmara antes de seguir para eventual sanção do prefeito.

Para o advogado Flávio Crocce Caetano, presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP, a proposta impõe restrições direcionadas exclusivamente à população LGBTQIA+.

“Não se pode proibir que crianças e adolescentes, cuja responsabilidade é dos pais, participem de eventos como esse. Quem decide o que é bom para os filhos são os seus pais”, afirmou.

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