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Toffoli autoriza investigação sobre uso de influenciadores contra o Banco Central

Data:
Antonio Dilson Neto

Polícia Federal aponta mobilização de cerca de 40 perfis em redes sociais.

Toffoli autoriza investigação sobre uso de influenciadores contra o Banco Central
Antonio Augusto/STF

O Supremo Tribunal Federal deu sinal verde para uma nova frente de investigação que coloca no centro do debate a relação entre interesses privados, comunicação digital e ataques institucionais. Por decisão do ministro Dias Toffoli, foi autorizado um inquérito para apurar a existência de uma estrutura organizada de influenciadores que teria atuado para fragilizar a imagem do Banco Central durante o avanço do caso envolvendo o Banco Master.

O pedido partiu da Polícia Federal, que identificou indícios de uma operação coordenada nas redes sociais, com aproximadamente 40 perfis mobilizados para amplificar críticas ao BC e direcionar ataques a agentes públicos ligados às apurações. A articulação interna recebeu o nome de “Projeto DV”, referência ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira.

Segundo a investigação, os contatos com criadores de conteúdo começaram ainda em dezembro e incluíam acordos de confidencialidade rigorosos, com previsão de multas de até R$ 800 mil em caso de vazamento de informações. Os contratos tratavam como sigilosos não apenas os planos de comunicação, mas também dados jurídicos, financeiros e a identidade dos participantes da campanha.

O modelo da operação levou investigadores a comparar o esquema a um “gabinete do ódio” privado, expressão usada internamente pela PF para descrever a tentativa de influenciar o debate público por meio de narrativas repetidas, ataques pessoais e pressão indireta sobre instituições de Estado. A analogia remete ao uso político de redes digitais observado em anos recentes no país.

Relatos colhidos pela investigação indicam que os influenciadores foram abordados com a promessa de participação em um trabalho de gestão de crise reputacional, apresentado como demanda de um grande executivo do setor financeiro. Um dos procurados foi o vereador Rony de Assis Gabriel (PL-RS), de Erechim, que confirmou ter recebido proposta do marketeiro André Salvador, responsável pelas primeiras investidas junto aos perfis selecionados.

Salvador também manteve contato com o deputado estadual Léo Siqueira (Novo-SP), ocasião em que se apresentou como integrante da agência Mithi, vinculada a Thiago Miranda, sócio do Grupo Léo Dias. A estratégia incluía o envio de exemplos de conteúdos já publicados, com críticas diretas à atuação do Banco Central no episódio envolvendo o Master.

Entre os materiais citados está um vídeo publicado pelo perfil Alfinetada, que, no fim de dezembro, passou a questionar a conduta do ex-diretor do BC Renato Gomes, sugerindo conflitos de interesse. Gomes foi o responsável por comandar a área técnica que recomendou o veto à compra do Banco Master pelo BRB, além de produzir relatórios encaminhados posteriormente ao Ministério Público Federal.

Procurado, o Grupo Farol, que presta serviços ao perfil Alfinetada, afirmou não ter participado de qualquer negociação relacionada ao banco ou ao episódio. Em nota, a empresa declarou que atua exclusivamente na área publicitária, observando as normas legais e os códigos do setor.

Com a abertura do inquérito, o STF passa a examinar se a atuação digital identificada pela PF ultrapassou os limites da comunicação estratégica e avançou sobre práticas de desinformação, pressão institucional e ataque coordenado a agentes públicos.

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