O Projeto Maré Viva avançou com ações de restauração de corais e controle de espécies exóticas invasoras em Itaparica, na Bahia. Nos dias 21 e 22 de setembro, a iniciativa realizou o mapeamento de áreas e a instalação de cinco berçários, com 250 sementeiras destinadas ao cultivo de corais nativos da espécie Millepora alcicornis, conhecida como coral-de-fogo.
Realizado pela Carbono 14 Restauração Ambiental, o projeto conta com patrocínio da Acelen, que apoia as ações voltadas à conservação dos ecossistemas marinhos, restauração de corais nativos e valorização da biodiversidade na Baía de Todos-os-Santos. A participação da empresa integra uma iniciativa que também envolve pescadores e pesquisadores no monitoramento dos ambientes marinhos.
Para Zé Pescador, que atua com restauração de corais, o trabalho reúne técnicas de recuperação ambiental e a experiência das comunidades que vivem da pesca. Ele explica que uma das estratégias desenvolvidas pelo projeto utiliza o esqueleto de um coral invasor para produzir estruturas nas quais são fixados fragmentos de espécies nativas.
“Eu já trabalho com restauração de corais há alguns anos, com restauração ativa, que é coletar fragmentos de corais e implantar esses corais no recife. Só que nós desenvolvemos um método que reaproveita o esqueleto de um coral invasor”, explica.
O material é transformado nas chamadas sementeiras, estruturas feitas de carbonato de cálcio que recebem pequenos fragmentos de corais nativos.
“Graças a Deus, deu certo. O coral cresceu sobre a sementeira, que acabou virando um coral também. Essa sementeira com o fragmento se transformou em uma colônia e, então, começamos a implantar essas colônias em áreas dos recifes importantes para a pesca”, afirma.
Segundo Zé Pescador, a recuperação dos corais também está relacionada à presença de outras espécies nos recifes. “O coral tem uma importância fundamental no ecossistema porque atrai biodiversidade. Quando você chega a um recife que tem coral, há uma abundância de espécies que vivem do abrigo e do alimento que o coral produz.”
Participação dos pescadores
A nova etapa do projeto contou com cinco pescadores, que participaram do mapeamento e da instalação dos berçários. A proposta é aproximar o conhecimento técnico da experiência das comunidades que mantêm relação direta com o ambiente marinho.
“O mais interessante desse projeto, chamado Maré Viva, é justamente o controle de espécies exóticas e a restauração de corais em áreas onde os pescadores estão sendo impactados”, afirma Zé Pescador. “Nós trabalhamos capacitando os pescadores e realizando com eles o monitoramento e o controle dessas espécies.”
O projeto também desenvolve ações relacionadas à Chromonephthea brasiliensis, espécie de coral mole que, segundo os responsáveis pela iniciativa, vem sendo encontrada em grandes quantidades na região. O material retirado ainda está sendo estudado para identificar possíveis formas de aproveitamento. Até o momento, parte do material é encaminhada para aterro sanitário.
“Ainda estamos estudando que tipo de aproveitamento podemos dar a ele. Até o momento, não temos uma destinação que traga algum benefício. Estamos estudando e enviando material para laboratório”, relata.
Ciência e conhecimento tradicional
Outro eixo do projeto é a aproximação entre pesquisadores e comunidades tradicionais. A iniciativa conta com acompanhamento científico da Universidade Federal da Bahia (UFBA), buscando estabelecer uma troca entre o conhecimento produzido pela universidade e a experiência dos pescadores.
“É muito interessante trabalhar com o conceito de ciência cidadã. Temos o apoio e o acompanhamento científico da Universidade Federal da Bahia, com o laboratório do doutor Igor Cruz, e fazemos essa ponte entre a universidade e os pescadores”, afirma.
O Maré Viva também promove atividades de educação ambiental. Uma ação realizada na Escola Estadual Ernesto Carneiro Ribeiro, em Itaparica, reuniu 177 participantes entre pescadores, estudantes, representantes da sociedade civil e instituições parceiras. Em seguida, foi realizada uma oficina de capacitação com pescadores para o controle da espécie Chromonephthea brasiliensis.
Para Zé Pescador, a participação dos trabalhadores também pode abrir novas possibilidades econômicas. “O impacto é atrair biodiversidade e também incluir os pescadores em uma atividade nova, em uma tecnologia social. Estamos falando, por exemplo, de uma maricultura que os pescadores podem desenvolver.”
A proposta é capacitar os pescadores para o acompanhamento dos berçários, o cultivo de corais e o monitoramento dos ambientes. “Queremos ensinar o pescador a trabalhar com esse tipo de maricultura, com a criação de corais e o monitoramento dos berçários.”
Espécies invasoras
O projeto realizou ainda o mapeamento de áreas conhecidas como coroas no canal de Itaparica, na costa oeste da ilha, consideradas importantes para a atividade pesqueira.
Segundo Zé Pescador, os próprios pescadores contribuíram para identificar alterações provocadas pela presença de espécies exóticas. “Desde que esse coral chegou à ilha de Itaparica, criou-se um desequilíbrio muito grande na produção pesqueira. Quem alertou para isso foram os próprios pescadores, que começaram a gravar vídeos e mostrar o que estava acontecendo.”
Sobre o coral-sol, ele afirma que a espécie pode crescer sobre corais nativos e afetar seu desenvolvimento. “É um coral até muito bonito, mas ele não serve de alimento. (...) Com os outros corais, principalmente os nativos, ele não tem predador. Então, cria um impacto muito grande: começa a crescer sobre os corais nativos, sombreia e mata o coral.”
Em relação à Chromonephthea brasiliensis, Zé Pescador relata que a equipe identificou uma expansão da espécie na região. “Nos dois dias em que estivemos em campanha, ficamos alarmados. (...) É impressionante a quantidade e a velocidade com que ele vem se espalhando na região de Itaparica.”
Segundo ele, em uma campanha anterior, foram retiradas mais de 1,5 tonelada do coral.

Apoio à conservação marinha
O patrocínio da Acelen está inserido nas ações do Projeto Maré Viva voltadas ao controle de espécies exóticas invasoras, restauração de corais nativos e participação comunitária na conservação da Baía de Todos-os-Santos. A iniciativa é executada pela Carbono 14 Restauração Ambiental e reúne pescadores, pesquisadores e representantes de diferentes setores nas atividades de monitoramento e conservação.
Para Zé Pescador, a participação de diferentes setores é importante diante dos impactos que atingem os ambientes marinhos. “A economia do mar envolve diversos atores. Empresas como a Acelen estão vendo nisso uma possibilidade de contribuir para a preservação dos ambientes naturais.”
Ele também destaca a relação entre as ações de conservação e as comunidades que dependem diretamente dos recursos marinhos. “Isso afeta muito mais quem vive da maré do que esses outros atores do território. Por isso, quando vemos uma empresa se sensibilizar e querer apoiar uma iniciativa como essa, ficamos muito felizes.”
Com a instalação dos novos berçários, o projeto pretende acompanhar o desenvolvimento dos corais nativos e ampliar as ações de restauração e monitoramento em áreas da Baía de Todos-os-Santos.
“Foi emocionante hoje ver um pescador colocar uma sementeira no berçário. É uma semente de esperança de que, mesmo com todos os problemas que o mar enfrenta, como a crise climática e a poluição, as coisas possam melhorar”, afirma Zé Pescador.