Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλ ("Canta-me, ó Musa, do homem polytropos, que muito vagou…) são os primeiros versos de A Odisseia, epopeia de Homero que virou (como seu autor) sinonímia para grandes jornadas ou feitos.
O quinto termo grego, polytropos (πολύτροπον), é um epíteto que define Ulisses/Odisseu antes mesmo de o nomear. Composto de poli («muitos») e tropos (de trepō, «virar», «mudar de direção», mas também «modo», «maneira», «estilo»), o adjetivo carrega uma ambiguidade profunda: pode referir-se aos múltiplos desvios físicos da viagem do herói (as «voltas» geográficas), à sua versatilidade mental (a capacidade de se adaptar, de «virar» estratégias) ou à sua astúcia.
Séculos de linguistas e tradutores debatem o significado real do termo e, não sendo nenhum dos dois, prefiro pensar no fenômeno causado pela escolha. Como Homero não pôde representar Odisseu em IMAX, escolheu um termo bastante complexo para apresentar o protagonista, convidando o ouvinte (é uma canção, afinal) a refletir sobre a natureza do homem que sobrevive não pela força bruta, mas pela humildade que arrecada no caminho (a inteligência, somente, pode tanto construir o cavalo de Troia como fabricar o próprio naufrágio).
Veja no Instagram/
Ulisses é um dos personagens mais referenciados e representados na história das artes. É, também, uma figura difícil de transcrever, e a tradução de Nolan é (como são todas) um reflexo do nosso tempo, e explora a relação com a violência, culpa, dor e traição. Nolan resolveu mostrar isso por um ângulo menos filosófico que o de Homero, descrevendo um Odisseu endurecido pelas intempéries, em contraponto com cenas espetacularmente artísticas, como o Polifemo que parece ter sido pensado por Goya, o cavalo de madeira na praia, os ressuscitados do Hades e a impressionante entrada do exército de Agamémnon em Troia.
Há muitos destaques, como a Circe de Samantha Morton e seu canto sobre a natureza dos homens, a Calipso de Charlize (que nos faz acreditar nas razões de Odisseu esperar 7 anos em Ogígia) e o duplo de Lupita Nyong'o, como Clitemnestra e Helena, o pão grego da discórdia.
Há cenas que talvez façam falta, como o tribunal dos deuses que abre o épico e a assembleia dos feácios, que encerra o ciclo fantástico da jornada de Ulisses. Mas, talvez, seja bom guardar certos exercícios exclusivamente para a imaginação.
Vejam o filme. E leiam Homero.