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'Que tal?' - Salve a Bahia, senhor

Data:
Eugenio Afonso

Fazia um frio de menos dez graus...

'Que tal?' - Salve a Bahia, senhor
Divulgação

Fazia um frio de menos dez graus. Era inverno em Strasbourg, nordeste da França, fronteira com Alemanha. Dessas fronteiras que você atravessa a linha imaginária a pé mesmo.

Pois muito bem, eu morava lá e tinha ido almoçar na casa de uma tia portuguesa. Isso foi nos idos dos anos 1990. Findado o almoço, despedi-me e segui para o ponto de ônibus.

Esta irmã do meu pai, que segue vivendo em Strasbourg, morava numa espécie de subúrbio da cidade. Um lugar chamado Suffelwairsalm. A calmaria em estado de sítio.

O local é basicamente residencial e não se encontra uma vivalma na rua. E como era inverno rigoroso estava todo mundo aquecido em casa. Menos eu.

Como morava no centro da cidade, precisava voltar pra casa. Então, parti para o ponto de ônibus, que era perto da casa onde almocei.

É importante frisar que os pontos de ônibus em Strasbourg têm uma placa com os horários. Inclusive, se o veículo chegar mais cedo fica no ponto esperando a hora exata para partir. Coisas de mundo espartano.

Eu fui andando e cheguei no ponto com um minuto de atraso. O ônibus estava vazio, já que ali era uma espécie de fim de linha. Percebi que ele estava saindo, mas não havia ninguém dentro. Baiano que sou, corri e bati a mão - estava a poucos metros do ponto - na esperança de que ele parasse pra mim.

Era um frio inclemente, e por mais acasacado que a gente estivesse, não deixava de sentir a temperatura invadir os ossos. Mas o motorista não parou! Passou por mim como se eu fosse um fantasma. Só porque atrasei minutos, segundos talvez.

Fui obrigado a esperar o próximo ônibus que viria dali a uns 40 minutos. Não acreditei na cena e chorei. Neste dia, desejei com todas as minhas forças estar na Bahia.

Lembrei dos motoristas cheios de malemolência, em Salvador, que param para as moças e os rapazes em qualquer lugar, ou quase, mesmo que eles estejam fora do ponto.

Lembrei do calor humano que exala dessa gente. Lembrei que a gente se toca, conversa, ri, fala bobagem. Lembrei que falta pontualidade, mas sobra humor e consideração.

Lembrei que fui formado aqui, na capital do dendê, e jamais entenderia tamanha desfaçatez. Nem quero. Lembrei do mar, do sol e desejei partir. E mesmo com tantas mazelas, agradeci por ser baiano.

Por poder entender o atraso, às vezes necessário – quem sabe foi um beijo roubado -, a mão no ombro, o piscar dos olhos, o sorriso aberto, a sustentável leveza de ser.

E como diz o ditado, quem gosta de pontualidade excessiva é trem inglês. A gente gosta de humanidade, empatia, gentileza, bom humor e alegria. Em situações assim, eu entoo o coro: Deus me livre não ser baiano!


 

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