Em 1950, Billy Wilder dirigiu o célebre Crepúsculo dos Deuses, filme que tem como protagonista Norma Desmond, uma atriz veterana do cinema mudo que fecha os olhos à transformação do mundo ao redor e insiste em viver como se ainda estivesse na Era de Ouro de Hollywood — mesmo que a realidade seja bem diferente.
Essa espécie de mundo em ruínas glamourosas é, também, o plano de fundo para o aguardado O Diabo Veste Prada 2, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (30).
No primeiro filme, descobrimos os bastidores de um mundo onde jatinhos, desfiles, estilistas e milhares de dólares são elementos do dia-a-dia, em um império comandado por Miranda Priestly (Meryl Streep), personagem inspirada em Anna Wintour, ex-editora-chefe da Vogue e uma das pessoas mais influentes no mundo da moda global.
A sequência chega vinte anos após o lançamento do original e a trama também avança no tempo. Andy, agora uma jornalista respeitada, enfrenta o desmantelamento da publicação em que trabalhava — uma realidade comum em 2026. Ela volta à Runway em um momento desafiador, onde ela e Miranda precisam lidar com um escândalo que coloca suas reputações em risco iminente.
Diferente do primeiro filme, aqui vemos como até as figuras mais ilustres e poderosas podem ter suas vidas sacudidas pelas crises do mercado e pelos humores de quem comanda o mundo atual.
Se, em 2006, ficamos maravilhados com os movimentos do poder editorial, em 2026 assistimos ao crepúsculo de um mundo em transformação. O grande diferencial do segundo filme é que ele aproxima o mundo de Miranda do nosso, o real, com demissões, cortes de gastos, desvalorização profissional e até um certo desrespeito por trajetórias consolidadas.
Uma das grandes discussões do novo longa é a influência das redes sociais nas profissões — sobretudo, no jornalismo. O que determina o sucesso ou fracasso não é mais (apenas) a qualidade editorial ou investigativa, mas seu potencial de tração no Instagram. Miranda é uma figura (como Anna Wintour) que ditava os caminhos da moda por meio do trabalho artístico (e visionário) que era espalhado pelo mundo nas páginas de suas respectivas publicações.
Agora, tudo isso ficou para trás e as tendências e reputações nascem, crescem e morrem nas telas dos smartphones. E é nesse mundo que Miranda precisa descobrir se ainda é capaz de manter o poder ou se, como Norma Desmond, está irremediavelmente presa a uma era de ouro que não volta mais.
Money, money money
Além do roteiro, o segundo filme tem outra diferença sensível em relação ao primeiro: o orçamento. São US$ 150 milhões contra US$ 35 milhões em 2006, e o novo filme reflete a inflação do luxo que marcou o universo de Miranda Priestly, em que itens icônicos, como sua bolsa Prada, hoje custa até dez vezes mais do que há vinte anos.
O tempo também mudou a percepção da indústria da moda sobre a obra. Há 20 anos as grifes temiam a ira de Anna Wintour (a diretora da Vogue em quem Miranda é inspirada) e fugiam do set, cedendo pouquíssimas peças. A figurinista do primeiro filme, Patricia Field, chegou a mencionar que usou itens comprados na 25 de março para compor os looks de Miranda; e a Prada, marca que dá nome ao filme, cedeu apenas uma bolsa de seu acervo - a que vemos no braço de Miranda, em sua primeira aparição. Agora, o cenário é outro: Molly Rogers, figurinista do segundo filme, contou que recebeu uma série de ligações das marcas disponibilizando catálogos inteiros para Meryl, Anne e Stanley.
Sequências costumam ser um problema no cinema. Ou perde-se algo da magia dos primeiros filmes, ou segue-se um ritmo muito diferente, o que distancia a audiência já fidelizada ou, pior: amarra-se demais o roteiro às ideias do filme original, o que dá uma sensação de reprise desgastada. Felizmente, O Diabo Veste Prada 2 foge ao estigma e é uma sequência que toma seu próprio (e bom) rumo. Tudo isso, claro, sem perder os acenos e “easter eggs” ao primeiro filme, como o creme de milho de Andy, o suéter azul-celeste e o temido segundo andar da casa de Miranda.
Na segunda volta à Runway, percebemos que mudou tudo: os personagens, a moda, a indústria e até nós mesmos. O filme não se prende ao passado e à nostalgia e este é o maior acerto. Talvez não seja um longa pensado para as premiações, mas é uma sequência que precisávamos — e sabíamos.