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'Lula 4' e a memória do eleitor brasileiro

Data:
Antonio Dilson Neto

O cenário que se desenha para 2026 sugere que estamos presos em uma reprise desgastada

'Lula 4' e a memória do eleitor brasileiro
Ricardo Stuckert/PR

Nas democracias, a memória é um ativo fundamental para a manutenção da saúde do sistema. É vital que o eleitor mantenha vivas as suas análises críticas sobre quem, de quatro em quatro anos, bate à sua porta em busca do bem mais precioso do regime: o voto. Sobretudo, é preciso recordar o que foi prometido e proposto por aqueles que postulam o poder.

No entanto, o cenário que se desenha para 2026 sugere que estamos presos em um looping retórico que ignora o amadurecimento institucional.

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É preciso, também, analisar o contexto com honestidade intelectual. Em 2022, a narrativa era de urgência: as armas (do diálogo e da coalizão) foram erguidas para derrotar o que se convencionou chamar de "mal do bolsonarismo" e, assim, reestruturar a combalida República que enfrentou uma pandemia, sucessivas tentativas de atropelo institucional e os arroubos autoritários de figuras associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O objetivo era a sobrevivência das instituições. Elas sobreviveram: culpados foram julgados e penas distribuídas. O Brasil assistiu, de forma inédita, ao rigor dos tribunais sobre a cúpula do poder anterior, incluindo a condenação e prisão de um ex-presidente, em processos amplamente transparentes e transmitidos à exaustão - e ao vivo.

Quatro anos se passaram e a tônica para 2026 parece ser uma reprise desgastada: "Ergamos novamente as armas, companheiros! O bolsonarismo está às portas tentando invadir". O discurso do medo, que serviu como antídoto em um momento de crise aguda, agora soa como uma estratégia de manutenção de poder por absoluta falta de alternativa.

Pelo que vimos até aqui, o presidente Lula não conseguiu (ou não quis) emplacar um sucessor. Falta um nome capaz de arejar as pautas, renovar a estética da campanha e conferir um novo fôlego à disputa pelo Planalto. Ao optar pelo "Lula 4", o governo aposta na polarização como muleta, evitando o risco e a necessidade de uma renovação geracional na esquerda brasileira.

A estratégia do "nós contra eles" pode até garantir a sobrevivência eleitoral por mais um ciclo, mas cobra um preço alto: o esvaziamento do debate de ideias em troca do pânico moral. Resta saber se o eleitor brasileiro aceitará o papel que parece já ter sido definido pela campanha do petista: o de um figurante amnésico nessa eterna batalha do “mal contra o bem”, ou se a memória das promessas de 2022 cobrará uma fatura que o PT ainda não parece pronto para pagar.

A ver se a insistência no passado será suficiente para segurar o futuro.

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