No último domingo (3), o altar da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), no Rio de Janeiro, deixou de ser apenas um espaço de liturgia para se transformar em palanque. Durante a celebração da Santa Ceia, o pastor Silas Malafaia interrompeu o rito sagrado para lançar a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República em 2026. O ato, carregado de simbolismo bíblico e orações nominativas, selou uma reconciliação estratégica, mas também acendeu um alerta jurídico sobre os limites entre a liberdade religiosa e o abuso de poder econômico.
A Associação Movimento Brasil Laico já protocolou uma representação na Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. A acusação é grave: propaganda eleitoral antecipada e desvirtuamento da finalidade espiritual do culto. Além de Malafaia e Flávio Bolsonaro, a ação mira nomes como o governador Cláudio Castro e Douglas Ruas, pedindo multas e a inelegibilidade dos envolvidos por oito anos. Há ainda o pedido para que a Receita Federal investigue se a ADVEC perdeu o direito à imunidade tributária ao funcionar como comitê de campanha.
A memória curta do púlpito
O que chama a atenção nesta fase de Malafaia (que já não é tão nova) não é apenas o apoio à família Bolsonaro, mas o apagamento deliberado do seu próprio passado. Quem acompanha o líder religioso hoje, consolidado como a voz mais estridente da direita evangélica e crítico mordaz da esquerda, mal reconhece o Silas de décadas atrás. Em vídeos antigos que circulam como fantasmas digitais, o pastor era o primeiro a abominar líderes que usavam títulos "outorgados por Deus" para se promoverem na política.
Antigamente, o discurso de Malafaia pregava que a igreja não deveria ser balcão de negócios eleitorais. Ele defendia a separação entre o cajado e a urna. Hoje, o mesmo religioso rasga seus antigos princípios em praça pública, sem cerimônia, ao afirmar que "há tempo para todo propósito", utilizando a Bíblia como verniz para legitimar um pragmatismo político que ele mesmo já classificou como espúrio.
A questão central desta metamorfose não é a mudança de lado ideológico — o que é natural em qualquer cidadão —, mas a erosão da coerência doutrinária. Ao transformar a liturgia da Santa Ceia em um lançamento de chapa, Malafaia submete a fé ao projeto de poder, provando que, no tabuleiro político brasileiro, os princípios de outrora são apenas obstáculos removíveis diante da conveniência do agora.