"Lula falou que ia fazer o diabo para ficar no poder. Mas ele esqueceu de uma coisa: enquanto ele está com o diabo, eu estou com Deus."
A frase foi dita por Flávio Bolsonaro às portas de um culto evangélico. Não é apenas provocação retórica. É um sintoma e, talvez um dos mais reveladores de uma mudança silenciosa na linguagem da política brasileira.
Não faz tanto tempo que o imaginário eleitoral era outro. Em 2018, e ainda em 2022, multiplicaram-se candidaturas embaladas por discursos militarizados e títulos de quartel: General Mourão, General Heleno, Capitão Bolsonaro, Major Olímpio, Coronel Tadeu. Havia, naquele momento, a sensação difusa de que o país vivia um colapso moral e institucional que exigia ordem. Para muitos eleitores, essa ordem viria dos quarteis.
Oito anos depois, o figurino mudou.
Quem acompanha os primeiros movimentos da disputa de 2026 já percebe que a farda perdeu espaço na vitrine eleitoral. Em seu lugar, avança outra linguagem: a da fé, sobretudo a evangélica. Não se trata exatamente de novidade, mas de centralidade. A religião deixa de ser elemento de apoio e passa a ocupar o centro da narrativa política.
Isso tem muito a ver com o que mobiliza os eleitores naquele período. Em 2018, o sentimento, para grande parte do eleitorado, era de que o país estava em uma bagunça "moral e cívica" que apenas forças militares conseguiriam desbaratar.
Oito anos depois a história é outra. Agora, embora não seja bem um discurso novo, a conversa é que enfrentamos uma crise de valores e identidade e que precisamos, urgentemente, de homens de fé para nos iluminar o caminho.
No Brasil, como na maioria dos países da América Latina – mas não somente neles –, sempre houve uma aproximação entre igrejas e Estado, religião e política, sobretudo no período eleitoral, quando tende a ocorrer uma "instrumentalização mútua entre religião e política" .
Os sinais já estão postos. No mesmo dia em que evocou Deus em contraste com Lula, Flávio Bolsonaro publicou outro vídeo em que recorre a uma imagem bíblica: compara-se a Eliseu recebendo o manto de Elias, sugerindo uma espécie de chamado involuntário à liderança. A metáfora não é casual e insere a disputa política em uma narrativa de destino, quase messiânica.
Antes mesmo de a campanha ganhar as ruas, a gramática já está definida. Resta saber como o eleitor vai decifrar o recado.
Pelo que já vimos até aqui, vai dar muito trabalho separar o joio do trigo eleitoral.