Um relatório da Polícia Federal aponta a suspeita de que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenha sido o beneficiário final ou proprietário de fato do fundo de investimento Arleen, que recebeu R$ 35 milhões em recursos ligados ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O documento ficou sob sigilo durante meses no âmbito das investigações do caso Master, sob relatoria do ministro André Mendonça, e veio a público nesta sexta-feira (11), após ser revelado pela revista piauí.
Segundo o relatório, os investigadores identificaram uma série de elementos que, analisados em conjunto, levantariam a possibilidade de que Toffoli estivesse por trás do Arleen e de seus ativos. O fundo manteve participação no resort Tayayá, empreendimento no interior do Paraná ligado à família do ministro.
A PF também identificou uma movimentação dos recursos para o exterior. Segundo o documento, cerca de R$ 35 milhões foram direcionados por meio da holding Egide I, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe.
A suspeita é baseada, entre outros elementos, na sequência de mudanças envolvendo a propriedade do fundo e seus ativos. O Arleen, que havia sido ligado a Vorcaro, passou posteriormente para um empresário descrito como amigo de Toffoli. Meses depois, seus ativos foram transferidos para uma estrutura registrada no exterior.
Resort Tayayá
A ligação entre o Arleen e Toffoli passa pelo Tayayá, resort localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. A empresa Maridt, da qual o ministro é sócio ao lado de familiares, mantinha participação societária em empresas relacionadas ao empreendimento.
Em 2021, parte dessa participação foi negociada com o fundo Arleen. Documentos já analisados pela PF indicaram que o fundo investiu R$ 35 milhões no empreendimento, embora a parcela formal adquirida da participação societária da Maridt tivesse valor inferior.
A investigação também encontrou mensagens trocadas entre Vorcaro e Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e ligado à gestão do fundo. Nas conversas, Vorcaro cobrava informações sobre aportes relacionados ao Tayayá.
Em maio de 2024, Vorcaro perguntou a Zettel sobre a situação de um aporte no empreendimento. Meses depois, voltou a cobrar informações sobre os pagamentos. Segundo os diálogos, Zettel afirmou que havia feito uma transferência para um intermediário responsável pelo pagamento final.
Em uma das conversas, ao cobrar a situação dos recursos, Vorcaro recebeu de Zettel a informação de que haviam sido pagos R$ 20 milhões anteriormente e que outros R$ 15 milhões seriam repassados. A PF relacionou os valores ao conjunto de R$ 35 milhões movimentados no negócio.
A apuração revelada nesta sexta-feira aponta ainda para uma etapa posterior da operação. Segundo o relatório da PF, o empresário Alberto Leite, descrito como amigo de Toffoli, assumiu o controle do Arleen em 2025.
Depois disso, teria sido criada a holding Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas e alterado o regulamento do fundo para permitir investimentos no exterior. Em dezembro daquele ano, aproximadamente R$ 34 milhões teriam sido transferidos do Arleen para a holding estrangeira, segundo a investigação divulgada pela Piauí.
Para a PF, a sequência das operações é um dos elementos que sustentam a suspeita sobre a possível condição de Toffoli como beneficiário final do fundo e de seus ativos.
Toffoli nega ter recebido dinheiro
Toffoli já negou ter recebido valores de Vorcaro ou de Fabiano Zettel. O ministro também afirmou que não tinha relação de amizade com o ex-controlador do Banco Master e que desconhecia o gestor do fundo Arleen.
A PF, por sua vez, não apresentou no relatório uma conclusão definitiva de que Toffoli seja proprietário do fundo. O documento reúne elementos que, segundo os investigadores, justificariam a suspeita e o aprofundamento da apuração.
A relação entre o ministro, o Arleen, o Tayayá e Vorcaro já havia sido identificada em documentos e mensagens analisados pela PF. Em fevereiro, a investigação apontou que os R$ 35 milhões foram movimentados no contexto da participação do fundo no resort.